PT - Para refletir
DE VEZ em quando surgem do meio empresarial notícias extraordinárias que nos ajudam a compor melhor o retrato do país e a compreender alguns dos seus bloqueios, mas que muitas vezes não saem dos suplementos económicos e dos jornais da especialidade. Notícias como esta: mal chegou a presidente da Portugal Telecom, Henrique Granadeiro extinguiu 60 lugares de administração em várias empresas do grupo. Esses cargos não eram fictícios. Estavam ocupados e os seus titulares recebiam, como é de regra, remunerações muito generosas com as mordomias correspondentes. Aliás, a decisão seguinte de Granadeiro tem precisamente a ver com salários e mordomias, pois congelou os vencimentos, decerto por considerá-los excessivos, a oitocentos quadros do grupo.
Lê-se e custa a crer que uma empresa, ou um conjunto de empresas, possa continuar a funcionar com toda a normalidade quando perde, de um momento para o outro, nada mais nada menos do que 60 administradores, sendo eles 180 no total. Mas não há sinais exteriores de que a sua saída tenha provocado qualquer drama, nem sequer a menor perturbação na Portugal Telecom. Do mesmo modo que não existe conhecimento de uma fuga em massa dos quadros atingidos pelo congelamento de salários, com certeza porque não consideram a decisão tão injusta que justifique a sua revolta e o eventual abandono de funções.
Ora, se uma empresa pode viver normalmente sem 60 dos seus administradores, a pergunta que se impõe é só uma: o que estavam eles lá a fazer? Isto para não se ir mais atrás nas explicações: porque foram eles nomeados e em que circunstâncias empresariais e políticas, ou porque se mantiveram nos cargos se deixaram de desempenhar funções de administração? Mistérios que podem ter mil explicações, mas todas elas alheias a critérios de racionalidade na gestão dos recursos humanos. E o mais provável é que a explicação seja simples e de natureza política. Porque se há uma área em que o bloco central nunca deixou de funcionar é na distribuição e partilha de lugares de topo nas empresas públicas ou naqueles onde o Estado ainda tem algum poder.
Outra notícia extraordinária vem de uma área contígua à da PT e por sinal pertencente, no passado não muito distante, ao mesmo universo: os correios. Para que os CTT possam enfrentar a liberalização total do sector, prevista para 2009, a administração de Luís Nazaré denunciou recentemente o acordo de empresa, um documento com 25 anos e cláusulas com direitos e subsídios que têm tanto de intrigante como de insólito. Por exemplo, o «subsídio de compensação por redução de horário», uma compensação devida ao facto de, em vez de iniciarem o dia às seis da manhã, os trabalhadores poderem começar a trabalhar às... oito. Ou o «subsídio de distribuição de correio», mais o «subsídio de divisão e distribuição de correio» que se somam aos ordenados... dos carteiros. Ou o «subsídio de condução» atribuído aos trabalhadores que, pela própria natureza das suas funções, utilizam carros da empresa...
Cada um destes subsídios tem a sua história, mas quase todos se destinaram a comprar a paz social em épocas de grande conflitualidade. Hoje são «direitos adquiridos», por mais insólitos que se nos afigurem. Tão insólitos como os 60 administradores sem trabalho que Granadeiro dispensou na PT. Os dois casos são notícias de um bloqueio que custa a romper. E ajudam a compreender porque é que Portugal já está atrás da Eslovénia.
Fernando Madrinha, Expresso 20-5-2006
Lê-se e custa a crer que uma empresa, ou um conjunto de empresas, possa continuar a funcionar com toda a normalidade quando perde, de um momento para o outro, nada mais nada menos do que 60 administradores, sendo eles 180 no total. Mas não há sinais exteriores de que a sua saída tenha provocado qualquer drama, nem sequer a menor perturbação na Portugal Telecom. Do mesmo modo que não existe conhecimento de uma fuga em massa dos quadros atingidos pelo congelamento de salários, com certeza porque não consideram a decisão tão injusta que justifique a sua revolta e o eventual abandono de funções.
Ora, se uma empresa pode viver normalmente sem 60 dos seus administradores, a pergunta que se impõe é só uma: o que estavam eles lá a fazer? Isto para não se ir mais atrás nas explicações: porque foram eles nomeados e em que circunstâncias empresariais e políticas, ou porque se mantiveram nos cargos se deixaram de desempenhar funções de administração? Mistérios que podem ter mil explicações, mas todas elas alheias a critérios de racionalidade na gestão dos recursos humanos. E o mais provável é que a explicação seja simples e de natureza política. Porque se há uma área em que o bloco central nunca deixou de funcionar é na distribuição e partilha de lugares de topo nas empresas públicas ou naqueles onde o Estado ainda tem algum poder.
Outra notícia extraordinária vem de uma área contígua à da PT e por sinal pertencente, no passado não muito distante, ao mesmo universo: os correios. Para que os CTT possam enfrentar a liberalização total do sector, prevista para 2009, a administração de Luís Nazaré denunciou recentemente o acordo de empresa, um documento com 25 anos e cláusulas com direitos e subsídios que têm tanto de intrigante como de insólito. Por exemplo, o «subsídio de compensação por redução de horário», uma compensação devida ao facto de, em vez de iniciarem o dia às seis da manhã, os trabalhadores poderem começar a trabalhar às... oito. Ou o «subsídio de distribuição de correio», mais o «subsídio de divisão e distribuição de correio» que se somam aos ordenados... dos carteiros. Ou o «subsídio de condução» atribuído aos trabalhadores que, pela própria natureza das suas funções, utilizam carros da empresa...
Cada um destes subsídios tem a sua história, mas quase todos se destinaram a comprar a paz social em épocas de grande conflitualidade. Hoje são «direitos adquiridos», por mais insólitos que se nos afigurem. Tão insólitos como os 60 administradores sem trabalho que Granadeiro dispensou na PT. Os dois casos são notícias de um bloqueio que custa a romper. E ajudam a compreender porque é que Portugal já está atrás da Eslovénia.
Fernando Madrinha, Expresso 20-5-2006
